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Adolescer cada vez mais cedo assusta, mas é comum

Entrevista com Dr. Hanna Fouad Saghié para o Jornal de Jundiaí.

Só o disparate que existe entre as definições do período que a adolescência compreende já mostra que se trata de uma fase complexa – e que muda com a evolução do tempo. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), os limites cronológicos da adolescência vão dos 10 aos 19 anos; já segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), adolescentes têm entre 15 e 24 anos. No entanto, mais que delimitar idades, esta fase – período de transição entre a infância e a vida adulta, caracterizada pelos impulsos do desenvolvimento físico, mental, emocional, sexual e social – tem chegado cada vez mais cedo, o que assusta pais e as próprias crianças.

“Nas últimas décadas houve um adiantamento na idade com que as crianças entram na puberdade. Na década de 20 a média era ao redor dos 14 anos, enquanto que atualmente, aos 10 anos e meio”, explica o endocrinologista Hanna Fouad Saghie, especializado na atendimento de adultos e crianças. Segundo ele, entre os motivos está a alimentação.

“Quando se fala em maturidade precoce muito tem a ver com a hiperalimentação pelas quais essas crianças são submetidas, principalmente por conta da obesidade, que contribui para que a puberdade chegue mais cedo”, alerta o médico, que se refere, especialmente, à alimentos com agrotóxicos e à liberação da substância bisfenol A, presente em mamadeiras de plástico e outros compartimentos em que alimentos das crianças são armazenados. “Hoje em dia os alimentos enlatados e mamadeiras contendo bisfenol A são importantes mediadores na puberdade precoce”, adverte.

Mas o endocrinologista ressalta que o meio em que a criança vive também influencia fortemente nesta mudança. “A sexualidade desenfreada transmitida pela televisão ajuda bastante. Atualmente as crianças dormem tarde sob influência dos pais, o que é um grande erro. Ficam expostas a programas adultos e inadequados.”

A psicóloga e neuropsicóloga Odila Rodrigues reforça a tese. “Os jovens vivem em uma sociedade em que os meios de comunicação e até mesmo relações sociais enaltecem e valorizam a vida sexual. Cedo já falam em namoro, já se exibem e expõem através do vestuário, danças e músicas que podem incentivar o desenvolvimento sexual.”

No entanto, sendo um ser em crescimento, desenvolvimento e maturação biológica, psicológica e social, a insegurança faz parte deste processo, o que torna o adolescente mais suscetível e vulnerável às influências sociais, ao comportamento dos amigos e dos adultos, alerta Odila.

Assim, chegam as dúvidas, descobertas e medos. Nesta fase em que há perda do corpo infantil e da identidade infantil, em alguns casos até a imagem dos pais é atingida: de pais heróis passam a ser vistos como pessoas falíveis, e passam a ser julgados, avaliados e as normas passam a ser questionadas. “Começam a entrar em um período de descobertas, inclusive com fantasias e desejos, fazem planos e até experimentando o corpo.”

Em tempos em que as meninas menstruam cada vez mais cedo, que os jovens se tornam pais na flor da idade, e que bebidas e drogas já fazem parte da rotina de muitos jovens, a entrada na adolescência exige presença e atenção.

Transições

Hebiatra em Jundiaí, Camilo José de Souza reforça que a adolescência é um momento onde pais e jovens vivem um drama mútuo. De um lado a criança se descobrindo quase adulto e por isso querendo descobrir tudo de uma vez. Do outro, pais querendo “segurar” os filhos e tratando-os como crianças. Quem ganha? Ninguém.

“O adolescente vive uma fase onde as mudanças sociais, emocionais e biológicas se misturam. Momento em que tudo acontece muito rápido e por isso as informações chegam na mesma velocidade. Daí querer descobrir e experimentar tudo, mas nem sempre isso é feito com responsabilidade.”

Esta transformação ocorre tão rápido que os pais nem sempre consegue acompanhá-los. E as dúvidas começam a surgir inclusive de como tratá-los. Mas uma coisa é certa: os pais não devem deixar os jovens dominarem a situação. “O jovem passa, sim, por uma turbulência em vários aspectos, mas isso não deve servir de desculpa, é preciso impor limites porque pais devem ser pais antes de serem amigos”, orienta o hebiatra.

Segundo a psicóloga Odila, todas as fases do desenvolvimento envolvem perdas e ganhos – até mesmo aos pais, que além de se defrontarem com o momento de seus filhos, vivenciam também a própria crise nessa época. “É hora de lidar com expectativas frustradas, refazer planos, projetos e buscar uma nova forma de se relacionar com seus filhos, agora adolescentes”, diz ela. “Não basta dar colo, fazer um carinho e dizer que a dor vai passar. Eles cresceram e têm outras necessidades, mas é possível ajudá-los porque quando orientados e esclarecido conseguem retardar o início da vida sexual e quando optarem por iniciá-la estarão mais preparados para vivenciá-la de maneira saudável, sem se exporem a riscos e comprometerem seu futuro.”

O hebiatra Camilo José reforça que é preciso conversar com os adolescentes, sem privá-los da liberdade. “É um momento difícil para os dois, mesmo assim a conversa é sempre a melhor maneira de entendimento porque o que é imposto não serve e não ajuda em nada.”

Fonte: Jornal de Jundiaí

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